domingo, 3 de maio de 2015

A Culpa é da Austen

Tenho uma certeza bastante acirrada que a srta. Austen teria ficado mais do que feliz em colocar grandes alertas em neon em cima da cabeça de todos os senhores Wickham e Willoughby, nos conceder grandes bailes onde o tocar de duas palmas fosse eletrizante e possivelmente colocaria doses altas de declarações de amor poéticas. Claro que, como bem já disse num texto mais cedo esse mês, a grande lição dela é sempre de manter a esperança (mesmo que você seja Anne Elliot, não é?) e de nos mantermos atentas ao que se esconde por baixo das aparências.

Mas é difícil as vezes imaginar se há contrapartes de fato no mundo que sejam tão certeiras quanto nos livros. Em uma realidade onde te julgam por não confiar e ao mesmo tempo te contam uma traição, onde um sistema eletrônico parece o meio justo para terminar com alguém com quem se falava de casamento e onde pessoas sem remorso, sem noção e trapaceiras andam soltas em cada esquina... Como ainda acreditar em finais felizes? Como não se dobrar quando falam que é bobagem esperar ligações verdadeiras? Ou, ainda: como se manter fiel ao que tanto te falam para continuar tentando, em todas as esferas?

Tem dias em que todas essas questões rodam minha mente incessantemente; parece que há ali um medo tão latente, por baixo de toda a fé, que as vezes sobe e grita aos ventos seus temores. E eu o ouço, porque as vozes na nossa mente são as mais difíceis de calar. Mas, ainda assim, quero me apegar no que considero os verdadeiros finais felizes; as pessoas que de fato acham uma relação de via dupla, onde ninguém faz ninguém de bengala, onde há de fato uma troca de amor; aqueles que oferecem seus sorrisos aos demais mesmo quando falta em si mesmos; onde há saúde e beleza na realidade, e não ilusões açucaradas com olhares e confissões; os que não deixam de apostar em seus próprios corações, embora esses últimos tenham sofrido as piores decepções. Esses últimos, em especial, são os grandes heróis dos meus olhos.

São essas pessoas que me fazem pensar que romances, sejam de quem for, são reais. Não apenas romances no sentido mais românticos, mas todas as relações humanas: as amizades que nos machucaram, os laços de irmandade que se mostraram fracos... Que não é perda de tempo acreditar, ter fé, ficar de olhos abertos para o que é especial. Cantar as canções de ninar - mesmo aquelas que você julgou perdidas - para os medos pessoais, manter os olhos abertos para quem de fato é verdadeiro, continuar um dia de cada vez dando chances aos que entram em todas as esferas.

Por mais que Austen não tenha me preparado para uma vida de batalhas de fato, ela me ensinou um pouco que não vale a pena viver sem cicatrizes. Razão e sensibilidade trabalhando juntos para ver o mundo, deixando orgulho, preconceito e persuasão de terceiros para lá. Então, é. Talvez dona Jane tenha me preparado para isso, no final das contas: para trabalhar em acreditar em histórias felizes.

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